Campeão da Libertadores pelo Vasco, Fabrício vira camelô no Rio

Ex-volante abandonou o futebol aos 31 anos e agora trabalha no Mercado Popular da Uruguaiana vendendo eletrônicos. Fama faz parte do passado

Quem passa pelas ruas apertadas e movimentadas da Uruguaiana, principal mercado popular do Rio de Janeiro, nem imagina que pode dar de cara com um ex-jogador que fez parte das principais conquistas recentes do Vasco, como o Brasileiro de 97 e a Libertadores de 98. Atualmente com 34 anos, o volante Fabrício Eduardo virou camelô. Mesmo novo, decepcionado com o futebol, ele resolveu a abandonar a bola há três anos para ter uma loja onde vende  equipamentos eletrônicos, como celulares e jogos para videogame.

Fabrício fez 118 jogos pelo Vasco. Cinco deles na campanha do título mais importante da história do clube: a Libertadores de 1998. Depois que saiu da Colina, no início de 2000, a carreira não alavancou. Passou por Naútico, Libertad-PAR, América-RJ, Americano-RJ, Remo, XIII de Campina Grande até chegar ao Casemiro de Abreu-RJ, onde, em 2007, aos 31 anos, decidiu parar. Os problemas físicos, como uma tendinite crônica no joelho, e os atrasos constantes de salários o fizeram procurar outro rumo. Aí, o comércio informal apareceu em sua vida.

Fabricio Vasco
Fabricio na loja que montou na Uruguaiana após abandonar o futebol

Fabrício ainda tem contato com ex-companheiros como Alex Pinho, Brenner, Azul, Pimentel e Pedrinho, mas futebol agora só nas peladas com os amigos, duas vezes por semana, com a preocupação única de se divertir e manter a forma, que está longe de ser dos tempos de profissional.

– Fui ficando mais velho e as coisas não foram acontecendo. Jogar em time pequeno é complicado, às vezes o mês tem 90 dias – contou.

O caminho até a Uruguaiana foi mostrado por Jorge, ex-companheiro no Casemiro de Abreu e que atualmente é vice-presidente do mercado popular. O início na nova vida não foi fácil para um atleta que estava acostumado com uma rotina bem diferente.

Não tenho vergonha do que faço atualmente. Pago as minhas contas. Teria vergonha se estivesse no tráfico. “
Fabrício

– Devo muito a ele (Jorge), que foi um irmão. No começo foi complicado. Eu estava acostumado com uma rotina de treinamentos. O tempo de trabalho era bem menor. Hoje em dia sinto falta até da concentração (risos) – disse o volante, que no Casemiro de Abreu atuou ao lado de outra promessa vascaína que não se firmou, o atacante Brenner.

Fabrício, que chegou a defender a Seleção Brasileira (sub-17 e sub-20) e jogou ao lado de Ronaldo Fenômeno, é um caso típico de jovem que consegue crescer rápido na carreira e não lida bem o sucesso. No tempo em que ficou no Vasco, ele se deixou levar por algumas tentações, como a vida noturna e o álcool. Não conseguiu guardar dinheiro e, após chegar a clubes pequenos, viu seu padrão de vida cair vertiginosamente. A depressão bateu.

– Não tive cabeça, apesar dos meus pais me orientarem. Gastei em farra, noitadas… Nunca usei droga, mas cheguei a beber em excesso. Hoje, com minha maturidade, não faria de novo. O dinheiro vai acabando e depois você vê o quanto gastou. Quando era solteiro, gastava muito dinheiro mesmo. Ter um padrão de vida alto e cair tão rapidamente não é fácil, fiquei um pouco em depressão.

Quando a época não era mais de fartura, ele viu muitas pessoas que se diziam amigas sumirem rapidamente.

– Quando eu estava na mídia, tinha muitos amigos. Mas hoje sei quem são os verdadeiros.

As lembranças de um passado cheio de conforto estão na casa dos pais, em Campos, no norte do estado do Rio. Lá estão guardadas as camisas dos clubes, medalhas, faixas de campeão e fotos histórias. No acervo há também um uniforme do River Plate, trocado no histórico jogo da semifinal da Libertadores, no estádio Monumental.

Mas muitos objetos acabaram sendo destruídos em uma terrível enchente que castigou a cidade do norte fluminense em 2006. A casa foi inundada e castigada com a força da água, que afetou, principalmente, o bairro da Pecuária, onde os pais do ex-atleta moram.

Fabrício, aliás, tem uma relação de muito carinho com a cidade onde nasceu. Depois de encerrar a carreira, ele chegou a disputar uma liga amadora do município pelo Força Verde, time onde já havia jogado quando criança. Marcou o gol do título da Liga Campista 2007.

O pai Roberval Alves, de 57 anos, contou que seu filho preferiu gastar dinheiro com coisas supérfluas a tentar garantir seu futuro.

– Em 97, quando ele foi campeão brasileiro, falamos para ele comprar um terreno ao lado da nossa casa. Só de bicho, ele ganhou cerca de R$ 90 mil. Imagina quanto isso não valia naquela época. Mas Fabrício não quis, comprou um carro, começou a gastar dinheiro no Rio com mulher e bebida. Foi tudo embora – disse Roberval.

Fabricio VascoFabrício (o segundo em pé da esquerda para a direita) jogando na seleção ao lado de Ronaldo

Para a mãe Guionedir da Silva Alves, de 51 anos, que trabalha como auxiliar em uma clínica, seu filho não teve maturidade suficiente. Ela contou que as dificuldades após a saída do Vasco desanimaram muito o atleta.

– Ele foi infantil. A fama não podia subir à cabeça. É uma boa pessoa, bom filho. Não é dizer que gastou tudo, ele não teve oportunidade. Foi desanimando com o tempo. Às vezes ia para o banco, às vezes nem ia, e isso atrapalhou muito na carreira. Fabrício sempre falava que ia chutar o balde. Eu dizia que tudo bem, que ele nunca ia deixar de ser o meu filho – disse Dona Guionedir.

Mas se engana quem pensa que o ex-volante se sente diminuído por trabalhar atualmente como camelô. Após um período difícil, Fabrício aceitou a nova vida e hoje se sente feliz na nova atividade, que lhe permite viver com dignidade e criar os dois filhos, Eduardo, de dez anos, e Yasmin, de dois. Ele mora em São Cristóvão.

– Não tenho vergonha do que faço atualmente. Pago as minhas contas. Teria vergonha se estivesse no tráfico. Tenho o maior orgulho de ser camelô. Estou feliz no mercado, trabalho e não faço mal para ninguém. No mercado tem ex-presidiário, ex-prostituta… Tem espaço para todos trabalharem com dignidade.

Como foi a sua chegada ao Vasco?
– Comecei no Goytacaz e em 1991 fui para o Vasco. Quem me levou foi o zagueiro Tinho, que também era de Campos. Tive passagens pela Seleção Brasileira sub-17 e sub-20. Minha estreia no profissional do Vasco foi com apenas 16 anos, com o professor Antônio Lopes. A minha geração tinha o Felipe, Pedrinho, Géder, Henrique, Cristiano…

O pessoal da Uruguaiana costuma comentar sobre os jogos com você? Tiram sarro quando o Vasco perde?
– Quando tem algum jogo, principalmente clássico com o Flamengo, alguns colegas que têm lojas aqui em volta gostam de comentar. Alguns torcedores também. Aí tentam fazer alguma brincadeira.

Já recebeu a visita de algum dos seus ex-companheiros de Vasco?
– Sim, alguns já passaram aqui pela loja, como o Donizete (Pantera), o Cristiano, o Alex Pinho e o Maciel.

Qual foi o momento mais especial da conquista da Libertadores de 1998?
– Só o Vasco ganhou a Libertadores no ano do centenário. Fiquei muito feliz com isso, porque sou um vascaíno nato. Minha principal lembrança daquele título foi o jogo contra o River, o golaço do Juninho de falta. Depois daquela partida, já imaginávamos que seríamos campeões. Contra o River, eu fiquei no banco. Aquele gol do Juninho foi a mão de Deus. A torcida canta aquele lance até hoje.

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